quinta-feira, 21 de abril de 2011

melhor maior idade

Uma breve ansiedade escapa pelo sutil entrelaçar dos dedos da mão. O cabelo continua fortemente esticado e atado a um ponto central, de onde partem cachos ensaiados, que valorizam os traços redondos do rosto pueril. As tesouras recortaram decotes, expuseram braços e pernas, mas comportaram-se nas ancas, cintura e busto. A fartura contida das carnes continuou macia e acolhedora, sem exageros mas também sem economia. A harmonia do conjunto não foi abalada, sequer ameaçada, e evidencia ainda a perda de alguns anos. Mas quem é que explica a luz que erradia aquele corpo indeciso entre a juventude e a velhice?

Conheci Marisa em uma madrugada de tambores silenciados. Sua discrição contrastava com a beleza de duas jovens e extravagantes mulheres negras, uma magra e esbelta, outra bela e farta, duas meninas fantasiadas de beleza e carnaval. Eram suas filhas no balé do maracatu Sol Nascente. O asfalto pertencia ao Pátio do Terço. E eu era a embriagada aspirante à nação pernambucana a esbarrar na presença dessas enfeitiçadoras mulheres. Não sei explicar exatamente como. Tampouco como nos tornamos íntimas, apesar dos contrastes de pele, sotaque e de falas. O fato é que, cerca de um mês depois, eu já frequentava a casa das três poderosas mulheres na posição de filha e irmã de criação. Galinha ensopada, arroz, feijão, macarrão com coentro, macaxeira, refrigerante e a minha sobremesa predileta: delícia de abacaxi. Nada como um simples e delicioso cardápio caseiro para sedimentar as memórias.

Para chegar, terminal Córrego de Euclides. Desse pequeno círculo de concreto encravado em uma esquina partiam inúmeras flechas imaginárias que conduziam a braços de ruas, que se bifurcavam em dezenas de vielas, que escalavam o Morro da Conceição em um intrincado emaranhado de escadarias e de pequenos córregos a céu aberto. Para chegar ao portão alto e branco de muros desenhados era preciso enfrentar umas boas dezenas de degraus. A companhia estava em ambos os lados, entre barracos de zinco, estreitas casas de tijolos expostos, armações de concreto, casebres em formato de caixotes. Tantos eram os materiais, as cores, a predominância dos tons e do cheiro de terra e esgoto. Muitos também eram os corpos em movimento e os graus que aqueciam tanta superfície.

Agora pensando me recordei do dia em que fui conhecer a creche. Lembro-me do arrependimento de não levar a câmera fotográfica. Achei as cenas fortes, com um apelo em forma de beleza que a pobreza costuma proporcionar em imagens. Ou que nós aprendemos a contemplar como belo, como arte. As salas eram mau iluminadas, pouco ventiladas, com paredes expostas e parcialmente cobertas por adereços infantis, motivos de alfabeto ou rabiscos. No chão, um a um enfileirados, estavam vários corpinhos seminus, deitados em estreitos colchonetes, coladinhos um no outro ao abanar de ventiladores capengas. Algumas moças vigiavam as crianças enquanto conversavam ou faziam a unha, uma ou outra preparava a merenda. Logo se percebia a precariedade das instalações e a falta dos recursos. Mainha dirigia aquela creche comunitária, informal, montada através da iniciativa popular para suprir uma carência essencial. Enquanto elas exercitavam um incrível jogo de cintura para angariar fundos e cobrir as despesas de água, luz, telefone e merenda, eu me preocupava em registrar na memória detalhes daquela dedicação que por dezenove anos não lhes rendeu um centavo sequer. Só levou. Tanto na creche quanto na casa, também adaptada a acolher jovens criancinhas entre os dois horizontes solares dos dias.

Só hoje me dou conta que toda essa entrega nunca fora exatamente uma opção na vida das três. Essa foi a única opção dada a uma mulher, impedida de exercer sua liberdade e culturalmente destinada a cuidar do lar, dos filhos e da impressão que poderia causar aos vizinhos. Daí vestir o seu charme sem deixar pedaços de corpo expostos. Daí esconder sua ousadia com um sorriso tímido e um olhar contido. E silenciar o corpo ávido por movimento e sensualidade em monótonos gestos cotidianos. Uma obra de painho...

Painho eu nunca conheci. Nunca esteve nos almoços de domingo. Era daqueles que nem bem esperava as 12 baladas natalinas, logo após a ceia, e desaparecia na noite escura. Faleceu no ano em que eu me mudei de lá. Como herança deixou algumas amantes e uma boa quantidade de filhos para partilhar com as três mulheres, a modesta aposentadoria de motorista de ônibus. Partimos juntos e foi assim que eu guardei a lembrança da minha mãe desde então. Não sei como fui deixar esses anos todos se passarem até hoje, o dia do nosso reencontro....

Como eu disse Dona Marisa não só não envelheceu nesses cinco anos como ainda ganhou mais outros cinco. Hoje ela mostra a pele negra e ainda jovem dos seus braços, das pernas e do colo em tecidos fortes e vibrantes. Anda do mesmo jeito, o olhar e o sorriso são os mesmos, mas a alma que os sustenta é maior do que o seu corpo, então extravaza. Acho que é isso que faz a beleza dela parar as pessoas na rua e levar contraste para as cenas das propagandas do carnaval em que ela rapidamente aparece na televisão. Sem querer ela se destaca. Com humildade ela rouba a cena. Quase sem falar ela impressiona.

Eu soube...

Marisa trocou as creches por um salário e uma carteira assinada. É praticamente a ela que recorrem os funcionários e doutores do hospital onde trabalha, e botou ordem. Com medidas básicas de higiene deixou médicos de queixo caído e não consegue entender todo esse espanto: atribui seus métodos à experiência adquirida nos tempos idos com as crianças (inclusive, costuma ser importunada nas férias, o hospital de luxo desanda sem a sua presença). As vezes ela se questiona como demorou tanto para usufruir de um talento com reconhecimento. Mainha também não se intimidou, vestiu a fantasia e caiu na avenida. Agora é destaque como bahiana do maracatu e desfila, roda, brilha, tanto quanto as filhas. E quando bota pé na rua... a dona Marisa é de parar o trânsito. Em uma dessas passagens saiu de braços dados com um novo, ou um primeiro... amor. Apesar dela não ter quase cabelo branco e ele quase não ter cabelo com cor, mainha ainda não consegue acreditar que ele ame a sua liberdade. Então ela voa com receio de cair lá do alto, lá de cima da imensidão e da beleza da vida que ela nunca imaginou que existisse. Seu próximo passo: extinguir as escadarias do seu cotidiano e ir morar perto do barulho do mar. Mesmo com o receio das pernas não mais aguentarem aquele monte de degraus, no fundo no fundo eu acho que o que ela quer mesmo é se afastar dos últimos resquícios do passado. Com exceção é claro das duas maiores pedras preciosas que seu útero lapidou: Nilfânia e Nilvânia.


Como é bonito ver alguém renascer aos 60 anos de vida.
Como é bom encontrar a humildade em forma de mãe.

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